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Veja São Paulo

Como pais e colégios tentam tornar as lancheiras mais saudáveis

Reformulação de cardápios, compra de produtos orgânicos e criação de hortas fazem parte das novas medidas

Por: Juliene Moretti e Aretha Yarak

28/08/2015

Camila Delouya, Helena Gonçalves e Luiza Souza no bufê do Oswald de Andrade: pressão por mudanças (Foto: Fernando Moraes)

Durante uma aula de culinária realizada há pouco tempo no Colégio Vértice, no Campo Belo, garotos de 6 anos fizeram uma descoberta surpreendente. Não só observaram uma batata in natura pela primeira vez na vida como foram informados de que o tubérculo amarelado é a matéria-prima das adoradas fritas. “Vários deles não tinham a menor ideia disso”, lembra a professora Nazareth Marques. O episódio, ocorrido em uma das melhores escolas da capital, é um triste reflexo dos hábitos alimentares de nossas crianças. Para muitas delas, as frituras fazem parte do dia a dia, e qualquer coisa mais natural parece algo de outro planeta. O resultado disso: quase um terço dos paulistanos entre 2 e 6 anos de idade está acima do peso, segundo um levantamento feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em 2013. “Trata-se de um número muito preocupante, principalmente porque não para de crescer”, afirma o pediatra Mauro Fisberg, especialista em nutrição infantil e autor do estudo. Há duas semanas, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou outro dado aterrador: entre os bebês com até 24 meses, um terço conhece refrigerante e 60% deles já comeram bolachas recheadas.

Em cantinas de colégio, o pedido mais comum no balcão é o clássico “Tio, me vê uma coxinha e um guaraná? ”. Algumas instituições de ensino resolveram tentar mudar esse hábito. Desde o início do ano, o Vértice permite a venda na lanchonete de apenas versões orgânicas de refrigerante e salgados assados, além de incluir opções de fruta, chás gelados e doces naturais. A unidade de ensino infantil do Colégio Oswald de Andrade, na Vila Madalena, tomou atitude mais radical, com o fechamento da lanchonete no primeiro semestre e a contratação da Nutrical, empresa que elabora cardápios saudáveis em cerca de trinta escolas, atendendo 15 000 alunos. “Profissionalizamos o negócio, tentando não perder o caráter caseiro”, diz a nutricionista Denise Vilella. Agora, em vez das frituras e dos doces, um bufê no intervalo oferece pães integrais, frios (blanquet de peru e queijo fresco), três opções de fruta e sucos. “Atendemos ao pedido dos pais por mudança”, explica a diretora Maria Antonieta Giovedi.

Já na unidade do Alto da Lapa, onde funcionam o ensino fundamental II e o médio, as novidades foram motivadas, quem diria, pelos alunos. Em março de 2014, o grêmio estudantil reuniu-se para reivindicar melhorias na cantina e conquistou o apoio de representantes de classe. “A comida era gordurosa e cara”, conta Camilla Delouya, de 17 anos, do 3º ano do ensino médio. A pressão deu resultado e, no início deste ano, a empresa Cantinatural assumiu os refeitórios e implementou um menu light. “As folhas e os legumes são orgânicos, temos opções vegetarianas e cortamos o refrigerante da cantina”, descreve o dono, André Saad.

As iniciativas não se restringem a mudanças no cardápio. Para aumentar o controle dos pais, o Colégio Palmares, em Pinheiros, adotou há um mês um cartão pré-pago para uso na lanchonete. Com ele, é possível fiscalizar os gastos e também bloquear um produto que não deve ser consumido pelo filho. “Se os pais decidirem que a criança não pode comer determinado salgado, o caixa será impedido de realizar a venda”, explica Francisco Guido, responsável pela cozinha.

A escola passou a oferecer mais opções de suco, pães integrais, verduras e filetes de cenoura e pepino. O desafio de reverter os maus hábitos alimentares de adolescentes é tão complexo que até mesmo pequenas conquistas são celebradas. “Em dez anos, baixamos a venda de refrigerantes de 200 latas diárias para cinquenta”, afirma Guido. O colégio também alterou o currículo das aulas de culinária, e receitas pesadas como massas deram lugar a saladas e cereais. As trocas colaboraram para mudar a rotina de estudantes como Pedro Pinto, de 9 anos, do 4º ano do ensino fundamental I, que abusava de chocolates e frituras. A conduta reprovável acabou levando a mãe, Wilma Clemente, a ser chamada à diretoria, em maio. “Elaboramos em conjunto um programa de reeducação alimentar e, em três meses, ele perdeu 3 quilos”, comemora.

Outras escolas registraram conquistas curiosas entre seus alunos. Há três anos, a PlayPen Escola Cidade Jardim investiu 200 000 reais na compra de um forno a vapor, que evita a perda de nutrientes, na contratação de uma nutricionista e na reforma do cardápio e da cozinha. No almoço, a lanchonete, proibida de vender refrigerantes e frituras, fica fechada. Os estudantes comem no bufê, que oferece arroz, feijão, saladas variadas, frutas e bolos caseiros. Ali, Sofia, de 8 anos, do 3º ano do ensino fundamental I, teve a oportunidade de experimentar alface pela primeira vez. “Ela sempre foi resistente a legumes, verduras e frutas”, conta sua mãe, a advogada Lisa Alves Lima. “Foi maravilhoso: Sofia chegou em casa toda animada.

”Durante o desenvolvimento infantil, o paladar começa a ser construído logo após a criança provar qualquer alimento diferente do leite materno. Se ela está matriculada na escola, o que aprende lá também modela suas preferências de sabor. De olho nisso, o Colégio AB Sabin, na Vila São Francisco, criou uma horta para ser cultivada pelos alunos do período integral, todos com idade entre 1 e 5 anos. Desde o primeiro semestre, além de regar as mudinhas, eles também se alimentam do que plantam. “A criança colhe, lava e, em aula, come um sanduíche ou uma salada”, conta a professora Adriana Tayar.

Não é apenas no ensino privado que a gastronomia está em pauta. Em 2013, uma medição de peso e altura foi realizada em 123 unidades da rede pública estadual. Cerca de 20% dos jovens registraram sobrepeso. “Com os dados em mãos, começamos um trabalho de conscientização”, conta o cardiologista Carlos Alberto Machado, um dos coordenadores da pesquisa. Entre as mudanças operadas, uma das mais significativas é a alteração dos produtos comprados pelo Departamento de Alimentação e Assistência ao Aluno da Secretaria da Educação estadual. O feijão e a carne deixaram de ser enlatados, e o arroz passou a ter versão integral. Desde 2012, o Fundo Social de Solidariedade, ligado à Secretaria de Governo, também investe no plantio de hortas dentro de 29 instituições na capital, atendendo 12 600 alunos. O espaço é usado durante as aulas de ciências, e os itens colhidos são incluídos na merenda. Na rede municipal, artigos provenientes da agricultura estão sendo priorizados como opção aos industrializados. Somente neste ano, a prefeitura investiu cerca de 25 milhões de reais na compra de orgânicos, dez vezes mais que em 2014. Em contrapartida, bolachas e bolinhos recheados foram excluídos da cesta.

Uma boa alimentação durante os primeiros anos de vida é fundamental para a saúde. Estudos indicam que, além de modelar o paladar, a ingestão de açúcares e gorduras em excesso nessa fase amplia o risco de se desenvolverem doenças cardiovasculares e metabólicas na vida adulta. Um relatório de 2014 da Rede Nacional Primeira Infância mostra que existe relação entre o consumo de bebidas adocicadas (como sucos de caixinha) e o aumento da probabilidade de a pessoa ter sobrepeso. Na batalha contra o cardápio “trash”, especialistas afirmam que não é necessário recorrer a radicalismos. “Não precisa extirpar o chocolate da vida do filho, é só ter bom senso na escolha das refeições”, afirma o pediatra Mauro Fisberg. “Eventualmente, em quantidades moderadas, a criança pode comer bolacha recheada.” Na hora de ir à escola, a regra que vale é a do equilíbrio. “Os pais devem selecionar um item de cada grupo: queijos brancos, carnes magras e frutas são sempre bem-vindos”, explica a nutricionista Dyandra Loureiro, do Centro de Obesidade Infantil do Hospital Sabará.

As mudanças ocorridas em alguns colégios parecem sugerir que a dupla coxinha e refrigerante está prestes a levar bomba. Na verdade, há ainda muito a avançar nessa área. Para se ter uma ideia do descompasso entre as recomendações de especialistas e a realidade, até dois meses atrás havia um fast-food dentro de uma das melhores escolas de São Paulo. No Colégio Dante Alighieri, nos Jardins, um quiosque do Bob’s vendia refrigerantes e sorvetes desde 2008.

Ele foi substituído em junho por um que oferece salgados integrais, sucos e frutas, com o objetivo de incentivar a alimentação saudável. Não é sempre que as novidades são bem recebidas. Em muitos locais, há forte resistência dos alunos a abandonar o vale-tudo nas refeições. Na unidade do Morumbi da Escola da Vila, houve até protesto quando o pastel e outras frituras foram abolidos da lanchonete, há alguns anos. Na ocasião, adolescentes perseguiam a nutricionista do colégio pelos corredores entoando “Ol, ol, ol, queremos colesterol!”. E, apesar da preocupação dos pais, a vida corrida de hoje serve de desculpa para as derrapagens no planejamento deum cardápio equilibrado. Afinal, é mais cômodo comprar bolos industrializados e sucos de caixinha do que montar sanduíches naturais.

Para facilitar a vida dos pais, algumas empresas passaram a produzir lancheiras saudáveis. Um dos exemplos é a Meu Lanchinho, inaugurada no início do ano como um serviço de delivery pelas empresárias Priscilla Borges, Larissa Santos e Caroline Kamakura. O cliente faz encomendas mensais, pagando entre160 e 340 reais, de acordo com a quantidade de produtos solicitados. Cada pacote contém uma fruta, um sanduíche pequeno de peito de peru ou de queijo, suco natural e, se o pai permitir, uma bolacha doce caseira. As entregas são realizadas diretamente nas escolas. Por enquanto, o serviço está restrito a alguns bairros da Zona Sul. Uma das freguesas é a analista de sistemas Roberta Morais, mãe de Pedro, de 2 anos, matriculado no maternal do Patoxó, no Brooklin. “Não consigo arranjar tempo para ir ao supermercado nem ao hortifrúti”, justifica. Outro recurso disponível é a consultoria. A engenheira de alimentos Mayra Abucham oferece diversas aulas, como de cozimento de papinhas saudáveis e de elaboração de lancheiras, por valores a partir de 1 250 reais. “Entrego à família um roteiro do que fazer de acordo com os hábitos da criança”, explica.

A prova do menu

Confira os alimentos vetados e os recomendados a crianças

Bolinho industrializado (141 calorias), bolachas recheadas (56 calorias), pão branco (128 calorias), embutido (108 calorias), salgadinho industrializado (145 calorias), refrigerante em lata (106 calorias), cereal industrializado (109 calorias) e queijo do tipo petit suisse (50 calorias)

(Foto: Fernando Moraes)

O que dizem os especialistas: a ingestão rotineira e frequente de produtos com alto teor de açucar e sódio aumenta o risco de doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes.

Castanhas (190 calorias), frutas com casca ou desidratadas (70 calorias), pão integral (60 calorias), queijo branco (80 calorias), atum (33 calorias), iogurte semi desnatado (90 calorias), cereal integral (105 calorias), cenouras baby (13 calorias) e tomates-cereja (6 calorias)

(Foto: Fernando Moraes)

O que dizem os especialistas: manter uma dieta adequada fortalece o sistema imunológico, evita doenças metabólicas e contribui para o desenvolvimento.

“Cola do Lanche”

Como evitar os principais erros ao estimular hábitos saudáveis

1. Só frutas: para aumentar a variedade de nutrientes, evite montar a lancheira com apenas um grupo de alimentos

2. Frutas ácidas e doces: a mistura pode retardar a digestão e causar mal-estar gástrico, o que dificulta o desenvolvimento do paladar

3. Sucos de caixinha: as versões tradicionais contêm excesso de açúcar, pouca polpa e quase nenhum nutriente

4. Achocolatados: apesar das vitaminas prometidas, eles têm muito açúcar

5. Adoçantes: nem todo “diet” pode ser consumido por crianças. São preferíveis a stevia e a sucralose em detrimento de aspartame, sacarina e ciclamato